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Artigo: Os sedimentos do mundo em Confissões de Minas
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Autor(es): Jeosafá Fernandez Gonçalves | | | | | | | | |
 
Os sedimentos do mundo em Confissões de Minas


No prefácio da primeira edição de Confissões de Minas, Drummond lamenta a ausência de um elemento que, naquela oportunidade, julga essencial: o tempo. Esse tempo a que ele se refere é aquele que abrange a gestação da II Grande Guerra e o momento da redação do mesmo prefácio, coincidente com a solução da batalha de Estalingrado e a deposição dramática de Benito Mussolini.
Com efeito, o leitor não encontrará nas páginas desse volume nenhuma alusão direta aos fatos históricos mencionados no prefácio. Aquilo que se oferecerá à Rosa do Povo como substância principal não comparece, ou antes, não constitui aqui foco central.
Porém, somente nesse sentido se poderá concordar com o autor, que assim descreve tempo das Confissões:
Este livro começa em 1932, quando Hitler era candidato (derrotado) a presidente da república, e termina em 1943, com o mundo submetido a um processo de transformação pelo fogo.
Isto porque Confissões de Minas está mergulhado e transido pelo tempo, não aquele representado na Noite dos Cristais ou nos enfrentamentos militares entre o aliados, o Eixo e a Rússia, mas um outro, menos evidente e grandíloquo, que por sob os acontecimentos épicos acomoda-se ininterruptamente, sem maiores sobressaltos, que se oferece ao mundo e aos homens como receptáculo da corrente contínua aonde vão dar todos os eventos, significativos ou não, diluídos, fragmentados, tornados matéria sedimentar, que essa mesma mina cuida de amalgamar e de dar consistência uniforme.
Os textos dessa coletânea catam efetivamente, e com presteza, o tempo individualizado dos ensaios e o tempo anódino das ocorrências cotidianas, simultâneo àquele que Drummond diz a ela faltar: o tempo épico, dos fatos históricos e coletivos. Porém, neles cintilam cacos desse tempo que ele diz ausente; cintilam e às vezes eclodem, de forma límpida e sem subterfúgios, como pepitas douradas sobre a peneira. Ecoa e algumas vezes eclode de forma límpida e sem subterfúgios, como uma pepita na peneira.
São repercussões de variadas naturezas e variados graus de nitidez que remetem, às vezes direta, às vezes indiretamente, aos textos de Alguma Poesia, Brejo das Almas, Sentimento do Mundo, e que anunciam mesmo os que virão a ser A Rosa do Povo. E não é necessário um estudo exageradamente aprofundado para que sejam notadas nesses textos as linhas de força da poética drummondiana, que nada tem de anacrônica.
Não deixa de ser emblemático que a coletânea se inicie pelo breve ensaio “Três poetas românticos”, sobre Fagundes Varela, Casemiro de Abreu e Gonçalves Dias, no qual Drummond destaca aspectos de estilo que, sendo essenciais nestes três poetas, são mais ainda em relação à sua própria obra.
“Fagundes Varela, solitário imperfeito” é um estudo que, ao pôr em relevo a solidão do poeta romântico, permite a Drummond refletir sobre aspectos ontológicos e de representação literária implicados em sua própria produção poética, submetida circunstancialmente temperatura e à pressão daquele tempo histórico, prenhe de eventos magnos em que está envolvido, que impele à ação coletiva mas que, contraditoriamente, acena a possibilidade do mais radical individualismo:
A solidão é niilista. Penso numa solidão total e secreta, de que a vida moderna parece guardar a fórmula, pois para senti-la não é preciso fugir para Goiás ou as cavernas. No formigamento das grandes cidades, entre os roncos dos motores e o barulho dos pés e das vozes, o homem pode ser invadido bruscamente por uma terrível solidão, que o paralisa e o priva de qualquer sentimento de fraternidade ou temor.
A propósito de demonstrar ser a solidão de Varela um mal-estar artificioso, assinalado pelo poeta romântico para convidar o indivíduo à comunhão, Drummond faz luz sobre sua própria posição em face da poesia e da vida:
Mas precisamente por não ter sido um solitário perfeito, e sim um homem, embora esquivo, preso aos outros homens por uma poderosa força de comunicação, é que sua poesia ainda hoje nos comove tanto.
Drummond, neste ponto, faz prospecção do poeta romântico como falasse de si mesmo, pois se a solidariedade de Fagundes Varela lhe diz respeito – embora Drummond se disfarce aqui no pronome ‘nós’ – é porque para ele esse minério precisa ser extraído, beneficiado e refundido para tornar-se matéria-prima de um nova indústria. Senão, consultem-se os versos de “Mãos dadas”, em Sentimento do Mundo, que se não são produto direto desse minério, reverberam na linguagem encanta da poesia os mesmos teores e, por que não, os mesmos quilates.
Não deixa de surpreender que Drummond busque em Fagundes Varela a comunhão, quando mais lícito seria esperar que buscasse nele a sublimação do indivíduo. Isso talvez se explique porque o poeta mineiro busque diligentemente extrair do texto do poeta rioclarense algum veio de que se possa valer para sua própria lavra poética, já que o primeiro entende que o segundo mergulha no profundo individualismo para retornar dele ansioso de compartilhamento:
O seu “Cântico do Calvário”, que o conservou na memória e na emoção do povo, como no apreço dos críticos, não é o canto de um homem só, por mais que o tenha deixado só a morte do filho. É um instrumento de comunhão na dor e de fusão com o poder divino, em que Varela acreditava.
Drummond temeu que os textos dessas Confissões de Minas se figurassem ao leitor como impermeáveis ao tempo a que alude no prefácio, mas a verdade é que elas são cosidas em tecido poroso e translúcido – às vezes atingem uma clara transparência – tecido que ao menor atrito se esgarça, se rende e permite entrever o que, a rigor, o poeta nem pretendeu ocultar. Se ofereceu ao leitor o prefácio como contraponto da coletânea, mineiro que é, foi mais por prevenção contra leituras distraídas.
O mesmo propósito anima Drummond em “No jardim público de Casimiro”, quando avalia a capacidade desse poeta em falar à psicologia do homem em geral:
O encanto de Casimiro de Abreu está na tocante vulgaridade. Em sua poesia tudo é comum a todos. Nenhum sentimento nele se diferencia dos sentimentos gerais,, que visitam qualquer espécie de homem, de qualquer classe, em qualquer país.
Vivendo uma época de profundas dissensões e amarguras coletivas, neste estudo Drummond busca as formas empregadas pelo escritor fluminense para se comunicar com a mais ampla gama de indivíduos possível, e se o objeto desse estudo é o texto de Casimiro, o foco é como se alcança a humanidade e suas aflições pela superação do particularismo, tão característico à condição do indivíduo, em relação à qual o escritor não se pode furtar:

O segredo de dizer coisas tristes sem envenenar muito a vida faz de Casimiro um parente de todos nós. Sua leitura não é uma provocação ao suicídio, nem torna sedutora a imagem da morte. Pelo contrário. O poeta receia morrer moço e pede que, se isto tenha de acontecer, “não seja já” (assonância a meu ver admirável, pelo que lembra da gagueira de pavor diante da morte).
Está claro que, ao tanger a lira de Casimiro, é à sua própria que Drummond visa afinar, interessado que está em extrair gemas as possibilidades de representação literária das coisas e dos eventos gerais em que está mergulhado, e para os quais o discurso grandíloquo se lhe figura ridículo:
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, nas escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
A procura da poesia realizada nestes breves ensaios de Drummond incorpora conscientemente a recente tradição literária brasileira, pois ela é uma mina que oferece cascalho, mas também brita e ouro de que necessita para forjar o seu mundo e o seu tempo simbólicos:
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Não é isenta de intenções, então, o exame empreendido em “No Jardim Público de Casimiro”. O que move Drummond não é nenhum sentimento encomiástico dedicado a um poeta que escreveu pouco e morreu jovem, mas o que da experiência literária pouca e fulgurante desse poeta é recuperável para sua mine(i)ração poética ao mesmo tempo confessional e engajada.
Enfeixando os três ensaios, Drummond garimpa em “O Sorriso de Gonçalves Dias”, em meio à ganga bruta e àquilo a que chama de ‘poesia carrancuda de Gonçalves Dias’, uma pepita de humor com o qual simpatiza:
Sua [de Gonçalves Dias] capacidade de ironia é nula, seu humour inexistente. Isto não impede que exclame [nas Sextilhas de Santo Antão] num suspiro:
Bom sancto foy Sam Gonçalo
Pesar que foi portuguez.
Sabemos que os escritores, principalmente os poetas, criticam e apreciam nos outros os defeitos que rejeitam e as qualidades que cultivam em seus próprios textos. Drummond está longe de ser um acadêmico, e seus ensaios sobre literatura não visam erigir uma obra teórica ou crítica. Antes, são campo de reflexão em que combinações são exploradas para fins de lide poética ou de mensuração de produção já realizada. O humor, a ironia, o sarcasmo, a paródia, nos quais melancolia e arlequinal se articulam, não são estranhos à poesia de Drummond e pontificaram mesmo em determinados períodos, com ênfase para sua produção até A Rosa do Povo.
Patuscada? O próprio Drummond mais maduro se lê essa sua poesia algo burlesca desse período com alguma reserva, a reconhece como significativa e não a rejeita . Afinal, se mica, quartzo e feldspato fazem granito, e diamante já foi carvão, quem deliberaria ser a poesia sinônimo de casmurrice?:
Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
Mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Assim, a espiritiosidade de Gonçalves Dias, escassa mas compungida, empresta ao poeta mineiro, até como uma certa jurisprudência literária, apoio necessário para que ele persista no garimpo de contrabalançar com laivos de humor a ganga inevitável dos tempos bicudos em que mergulhará seu texto poético:
Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
E eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
E tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
Drummond aprecia o sorriso de Gonçalves Dias nos versos das “Sextilhas” que, literalmente, fazem “piada de português”, e aprecia igualmente quando o português – aqui o idioma literário – é flagrado, antes mesmo do modernismo, na burla de regras francamente lusitanizantes:
Censurou-se há pouco ao Sr. Ribeiro Couto a frase deliciosa que dizia ao volume das Primaveras: “Te levo comigo.” A construção espontânea foi capitulada entre os “artifícios de mau-gosto e que pretendem aristocratizar os erros de sintaxe da fala dos incultos”. Mas a censura não cabe ao Sr. Ribeirto Couto. E sim a Gonçalves Dias. Últimos Cantos, poesia “Harpejos”:
Te vejo, te procuro,
Teus mudos passos sigo...
Prenda-se e enforque-se.
O humor é presença recorrente em Drummond, e não espanta que ele tenha fixado literalmente, no corpo do próprio poema, o reconhecimento dessa sua ferramenta de lavra poética. Em “Consolo na praia” dirá:
Algumas palavras duras,
Em voz mansa, te golpearam.
Nunca cicatrizaram.
Mas, e o humour?
Esse cultivo do humor em suas mais variadas nuanças, das mais brandas às mais intensas, é também atitude solidária de um poeta que encara com mineira desconfiança as ideologias empedernidas, mas com imensa boa-vontade o homem, em suas – muitas vezes incompreensíveis – contradições, das quais tratará em A rosa do povo, uma das prospecções mais fundas da literatura brasileira nos dramas humanos gerais.
Nestas Confissões de Minas, três linhas principais se articulam para dar forma aos textos: o homem, o tempo, e a geografia invariavelmente humanizada, de que a referência em “Recordação de Alberto de Campos” é exemplo eloqüente, mas não único:
O amigo que se mudou para o Rio e que não mandava cartas continuou sendo um dos seres preferidos, entre raros preferidos da rua humana.
Como bem o demonstra a singela homenagem a “Dois poetas mortos”, Ascânio Lopes:
A rua da Bahia não conheceu bem Ascânio Lopes, que passou por ela como um automóvel. Eu mesmo já tive ocasião de dizer, há anos, num poema que provocou geral indignação, apesar de ser perfeitamente insignificante: há os que sobem e há os que descem a outrora famosa rua pública. Os que sobem gloriosos e aplaudidos e os que descem obscuros e silenciosos. O auto de Ascânio desceu com o farol apagado, sem buzinar, e desceu para sempre.
E João Guimarães:
Entre duas cidades de Minas, como de resto entre duas ruas de não importa qual cidade, p ode haver mais distância potencial do que entre dois universos./ Efetivamente trocara de cidade, isto é, de alma.
A rua, a cidade, a geografia tomadas como veios simbólicos que levam do indivíduo à humanidade, explorados com ênfase em A Rosa do Povo, já estão aqui a descoberto. As crônicas sobre Itabira e sobre as cidades históricas de Minas podem muito bem ser entendidas como jazidas sentimentais do poeta desejoso de abarcar o mundo no seu coração, que já crescera dez metros e explodira em Sentimento do Mundo:
Entre o amor e o fogo,
Entre a vida e o fogo,
Meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! Nós te criaremos.
E se o tempo aludido no prefácio, ponto de chegada desse roteiro do indivíduo à humanidade, que está delineado mas não está explicitado, não comparece como elemento de primeiro plano, tampouco é tergiversado, como fica evidente em “Pessimismo de Abgar Renault”:
É nesta atmosfera (de maior liberdade, após a fase iconoclasta do Modernismo) que se move sem dificuldade o sentimento petiço de Abgard Renault, exprimindo não somente a sua reação pessoal diante dos temas clássicos do amor e da metafísica, mas também os obscuros iquietações do indivíduo e, ultimamente, alguma coisa mais comovedora, porque ligada às duras preocupações de nosso tempo. É esta a fase em que Abgard Renault vê largar do porto os imensos transportes de guerra, conduzindo homens à luta (...) Como os poetas e escritores conscientes da sua geração e do seu país, Abgar Renault sente que a sua poesia tem de sofrer a penetração da guerra e dos problemas espirituais e morais que a guerra suscita. Não é a subordinação ao tema de circunstância mas o reconhecimento da verdade de que o poeta só se pode alimentar do tempo, e que o tempo de hoje não é inferior a qualquer outro nem deve ficar de conserva, até transformar-se em passado, para atrair a prospecção lírica.
O tempo da luta antifascista não encharca o tecido dessas sutis inconfidências mineiras, mas o umedece inapelavelmente e, numa e noutra parte, permite observar o posicionamento político, humano, moral, ético e existencial do poeta, este sim, imerso naqueles dias e encharcado das experiências angustiosas de prenúncio, desencadeamento e efetivação da catástrofe nazista.
Ainda que o assunto seja a “Poesia e Utilidade de Simões dos Reis” ou “Morte de Federico Garcia Lorca”, o tempo histórico produz manchas nessa renda mineira, ou na forma de alusão aparentemente despretensiosa, no primeiro caso:
Porque seria impossível compreender a vida de Simões dos Reis num mundo sem livros. Se ele é antinazista, a explicação não estará no seu sentimento democrático propriamente dito, mas no conhecimento, que tem, de que o nazismo cultiva o mau hábito de queimar livros.
Ou na forma de apoio explícito ao engajamento, no segundo:
Uma de suas peças mais felizes, Yerma, é representada no país quando estala o golpe fascista. Os escritores se enfileiram ao lado da República, e Federido García Lorca não trai o profundo instinto popular que sempre o inspirou. É o momento em que não adianta falar a linguagem dos anjos e dos mistérios, em que a poesia tem de ser um protesto ardente e viril.
Na toalha rendada dessas “Confissões” estampam-se figuras de poetas e ilustrações sentimentais de cidades, mas nos vazios da renda estendida sobre a mesa pousam migalhas do tempo contemporâneo da escrita que o poeta nem de longe pretendeu disfarçar, migalhas de referências significativas, entre as quais se destacam as humanas ligadas à literatura.
Em meio a todo esse resíduo depositado nos interstícios do tecido uma figura ganha contorno e se destaca: André Gide, a quem Drummond se dirige com deferência, em “Recordação de Alberto de Campos”:
(...) em Alberto de Campos, espírito não prevenido’ na acepção gidiana (sic), era inútil procurar o conceito hereditário, a noção empalhada (...) É impossível esquecer, Alberto, aquilo que eu lhe fiquei devendo: a excitação intelectual, as leituras reveladoras (...) a descoberta de Stendhal, a admiração em comum de Gide.
Sem entrar no mérito do controvertidíssimo conceito de influência, nos fios que cosem a trama de Drommond percebem-se traços de uma demanda intelectual que se semelha ao percurso do escritor francês – ademais, não é nenhuma novidade o peso da cultura francesa na formação do intelectual brasileiro da primeira parte do século XX, e tampouco é desconhecido o papel proeminente de Gide na cultura francesa desse período, aliás, do que lhe resultou no Prêmio Nobel de Literatura de 1947.
Drummond não faz caso de explicitar a aproximação que busca de Gide e, ao nuançar seu estado de alma frente à paisagem sentimental de Itabira, recorre à citação do escritor francês para fazer refletir na experiência cosmopolita a experiência da província, itabirano a pôr-se a circular intimorato na órbita alargadíssima:
Sou de Itabira, uma vítima desse sofrimento, que já me perseguia quando, do alto da Avenida, eu olhava tuas casas resignadas e confinadas entre morros, casas que nunca se evadiriam da escura paisagem de mineração, que nunca levantariam âncora, como na frase de Gide, para a descoberta do mundo.
O diálogo do particular com o universal, a que já recorrera em “Morte de Federico Garcia Lorca”:
A solução desse pseudo, mas comprometedor conflito entre o local de o universal é, para mim, a primeira lição de Garcia Lorca (...) a segunda reside no seu conceito rigorosamente popular de localismo.
preocupa o poeta mineiro – e o adjetivo está sendo empregado aqui no sentido gentílico, mas também no profissional – , que organiza todo seu esforço para fazer conviver no âmbito de uma mesma lavra poética Itabira e Estalingrado. E se a solução lorquiana para o tratamento da experiência local cativa-o num extremo da exploração poética, a solução gidiana para a mundivivência o atrai, noutro:
Mas que livros, afinal, escolheríamos para uma estação de seis meses na ilhas deserta? André Gide conta que, quando estudante de retórica, um de seus jogos prediletos era precisamente esse de fazer, cada trimestre, a lista dos vinte livros. (...) Vinte livros parecerão muito à própria sensibilidade gidiana, que se compraz com os raros e estritos alimentos tirados de si mesma, e se mostra capaz de colher, na trama de um só livro, material para toda sorte de variações sobre os seus temas constantes.
Drummond percebe na militância intelectual e sensível André Gide ecos de suas própria mundivivência. Assim Gide fala de sua relação com a instituição escolar:
O que sentia, então, era um desprezo profundo por tudo quanto fazíamos no colégio, pelo próprio colégio, regime de estudos, exames, sabatinas, e até pelo recreio
Assim Drummond aborda a mesma experiência nas Confissões de Minas:
Primeiro aluno da classe,é verdade que mais velho que a maioria dos colegas, comportava-me como um anjo, tinha saudades da família, e todos os outros bons sentimentos, mas expulsaram-me por ‘insubordinação mental’. O bom reitor que me fulminou com essa sentença condenatória morreu, alguns anos depois, num desastre de bonde da Rua São Clemente.
Porém, mais do que a aversão em relação à instituição escolar a aproximar a biografia dos dois escritores estão os percursos intelectuais de ambos que, partindo origens conservadoras, convertem-se, mercê dos acontecimentos e das opões que se sentem impelidos a fazer em face deles, para posicionamentos francamente engajados, como já se expôs aqui no caso de Drummond, e como se pode conferir na citação seguir, no caso de Gide:
Não tendo muito mais a pedir, a tirar de si mesmo, foi para as questões sociais que Gide se encaminhou, muito naturalmente, sem precipitação.
Os posicionamentos de Gide frente às tertúlias literárias da época, às questões de ordem social e política, à ascensão do nazismo e à alternativa comunista, à qual adere com críticas, oferecem-se não só a Drummond, mas a toda uma geração de artistas e intelectuais, como sinais orientadores – e Gide tinha bem consciência do que realizava, haja vista seu De volta da URSS, de 1936 – e necessários, em meio a acontecimentos dramáticos que, num crescendo, da ascensão de Hitler, passando pela Guerra Civil Espanhola, exigirão dos intelectuais tomadas de posição cada vez mais nítidas, que se afunilarão, com a eclosão na II Guerra, para dois únicos campos: Aliados X Eixo.
Seria absurdo afirmar que Drummond, em Confissões de Minas, filia-se ao “partido” de Gide, mas não seria de todo afirmar que o primeiro se sente mais confortável em assumir as posições, às quais já se sente fortemente inclinado, ao observar que o segundo, sendo referência intelectual da cultura francesa – em relação aos quais nutre indisfarçável simpatia – caminha celeremente em direção semelhante.
As citações de Gide em Confissões de Minas, assim, também não são fortuitas, datam da década de 1930 , e mesmo quando traduzidas em termos aproximados (É exato que os sentimentos evangélicos não fazem bons livros , diz Drummond; A má literatura é feita de bons sentimentos, diz Gide ), são, antes, rubrica de associação do autor mineiro com um veio intelectual mundial de resistência ao totalitarismo de então.
A fórmula apresentada por Gide para adesão à causa antifascista repercute profundamente na sensibilidade de Drummond, que busca, tal como o escritor francês, a um só tempo, engajar-se nas causas coletivas e refinar o individualismo que julga indispensável ao exercício da poesia e da própria existência humana:
Pretendo continuar profundamente individualista, na plena aceitação comunista e até mesmo em favor do Comunismo, porque minha tese sempre foi esta: é particularizando-se que cada indivíduo servirá melhor à comunidade. Pela força da individualização é que a França pode e deve opor-se à unificação violenta do Hitlerismo , diz Gide.
Assim, apenas aparentemente Confissões de Minas está isenta daquele tempo citado por Drummond no prefácio. Retirada de sobre a mesa de Minas a tolha rendada, ficam as migalhas da massa que já está sendo preparada e que virá a ser a matéria principal de A Rosa do Povo, livro que é a massa do mundo sobre a tolha da mesa posta - migalhas, sim, de cascalho, também, mas ainda mais do melhor minério dummondiano.

Bibliografia

Andrade, Carlos Drummond de. Confissões de Minas. Col. Joaquim Nabuco. Dir. Álvaro Lins. 1 ed. Rio de Janeiro. Ed. Americ, 1944.
Andrade, Carlos Drummond de. Crônicas – 1930-1936. Crônicas inéditas sob pseudônimos Antônio Crispim e Barba Azul. Pesq. textos originais: Hélio Gravatá; Pesq. icon.: Cristina Ávila. Belo Horizonte, Arquivo Público Mineiro, 1987.
Andrade, Carlos Drummond de. Poesia Completa e Prosa. Vol. Único. Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Ed. 1973.
Archambault, Paul. Humanité d’André Gide – Essai de biographie e de critique psychologique. Paris, Bloud & Gray, 1946.
Arland, Marcel. Nouvelles Lettres de France. Paris. Ed. Albin Michel, 1954.
Beigbeder, Marc. “Vida e obra de André Gide”. IN Gide, André. O Imoralista. Rio de Janeiro, Ed. Delta, 1966.
Gide, André. O Imoralista. Rio de Janeiro, Ed. Delta, 1966.
 
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