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Artigo: América Latina: identidade plural
Área: Semiótica
Autor(es): Ricardo Baptista Madeira | Augusto Zanetti | | | | | | | |
 
AMÉRICA LATINA: IDENTIDADE PLURAL
(UMA ABORDAGEM SEMIÓTICA)

Augusto Zanetti
Ricardo B. Madeira


Escritores e políticos de origem ibero-americana ou ibérica na primeira metade do século XIX, como Francisco Bilbaio Barquín, chileno, José Maria Torres Caicedo, colombiano, forjaram a definição de América Latina em oposição à de outra América: a anglo-saxônica.
Na segunda metade desse mesmo século, por ocasião da aventura americana de Napoleão III, que invadiu o México e ali entronizou o arquiduque Ferdinand Maximiliano (1862-1867), a França resgatou a denominação América Latina, enfatizando, nesta, a herança francesa. Afinal, este país havia colonizado parte considerável do continente americano: a Guiana Francesa, extensos territórios na América do Norte, como a Louisiana, além do Canadá e porções do Caribe. Com tal definição, o maior excluído era o “grande irmão do norte”, que nessa altura já se tornara defensor efetivo da doutrina do presidente norte-americano Monroe (1823), que proclamava "a América para os americanos".
Nos anos 1960, a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), um organismo ligado à ONU, formulava uma concepção teórica dualista, que pressupunha uma relação de exterioridade entre centro e periferia, isto é, entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Com isso, retomava-se o conceito de América Latina, mas desta vez interligado a coordenadas espaciais e econômicas.
Percebem-se, por este breve e muito sintético histórico da noção de América Latina, as múltiplas significações que já assumiu: passou da negação que afirma à inclusão que exclui e desta, ao dualismo, fundado na espacialidade.
Em resumo, o conceito de América Latina assumiu, nos últimos duzentos anos, múltiplas dimensões, unificadas, contudo, em torno de um único e exclusivo propósito: a diferenciação. No interior da pluralidade construída mediante as multivariadas designações, encontra-se um elemento unificador: a sombria herança colonial compartilhada por toda a América Latina. No entanto, esta última não só adquire aspectos diferenciados, mas provoca também a fragmentação, que torna impossível a unidade sonhada por Simon Bolívar no século XIX.
Com efeito, seria na esfera da diferença, tratada realmente enquanto diferença, que emergiria a identidade latino-americana, na qual, no entanto, brotam alguns traços comuns. Amálgama composto de continuidades e de rupturas que lhe conferem um caráter singular e único, ela é ao mesmo tempo a originalidade criativa e um laboratório de experiências sociais. E ainda, afastando modelos previamente determinados, espelhos que refletem imagens preexistentes (caso das diversas definições de América Latina), a pluralidade latino-americana encontra-se do lado oposto ao idêntico, ainda que se trate de uma identidade enraizada em aspectos históricos e geográficos comuns. A compreensão dessa identidade plural, atravessada de ponta a ponta por condicionamentos temporais e coordenadas espaciais compartilhadas, permitiria-nos rechaçar o exercício de sua interpretação limitado ao teatro da reprodução do mesmo e da repetição.
A questão de uma provável identidade latino-americana, no entanto, identidade essa ainda por se estabelecer em moldes mais definidos, nos lança, a seu tempo, num problema ainda mais fundamental. Seria correto se afirmar uma identidade latino-americana, algo como um conjunto de traços comuns, de algum modo a perpetuarem-se através do tempo ou mesmo a transformarem-se juntos, constituindo um amálgama de caracteres próprios e comuns que se diferenciam do que quer que não seja latino-americano ao longo do devir histórico? O conceito de identidade pressupõe algo que se identifique por algum critério, qualquer que seja, a identificação, portanto, de alguma inerência ou propriedade intrínseca que se mantenha, de alguma forma, idêntica a si mesma ao longo do tempo.
Há,realmente, por outro lado, a possibilidade de se pensar uma identidade em permanente transformação, um conjunto de traços que se mantém em se modificando ao longo do tempo, numa permanente tensão dialética entre a conservação e a mudança. A linguagem e a cultura humanas possuem essa característica: a da permanência através da transformação. Mas seria isso realmente o que se entende por identidade? Não será o conceito de identidade uma criação sem correspondente no mundo real, uma simplificação demasiada ou equivocada do que se passa verdadeiramente? Pode ser que algumas realidades, naturais ou culturais, efetivamente se coadunem a tal conceito, mas seria esse, então, o caso da América latino-americana?
Em primeiro lugar, o que é idêntico a si mesmo? Aquilo que não se transforma. Falaríamos, nesse caso, de uma identidade. No entanto, o que não se transforma de fato? Parece difícil exemplificar-se a esse respeito. Justifica-se, então, o conceito de identidade que se tem por hábito usar ao se falar de uma América latino-americana ou mesmo do Brasil? Não seria esse mais um mito, como muitos há professados, desde o positivista século dezenove, na história da ciência?
Poder-se-ia pensar numa identidade em permanente transformação, jamais idêntica a si mesma – o que parece algo paradoxal a princípio. Consistiria ela numa espécie de identidade virótica, algo que se modifica e permanece ao mesmo tempo? Há, por exemplo, uma identidade relativa às línguas representativas de determinadas culturas, línguas essas que se mantêm precisamente porque mudam com o tempo – isso é fato. De outra parte, o conceito de língua compreende um sem-número de dialetos ou de variantes sócio-econômicas, de faixa etária etc., consistindo numa pluralidade que, didaticamente e por razões práticas, se coloca sob o mesmo rótulo, uma língua natural. Essa simplificação de nenhum modo é destituída de utilidade, mas, ainda assim, trata-se de uma mera simplificação que encobre diferenças às vezes irredutíveis – pense-se, por exemplo, nas variações dialetais, no caso brasileiro, do extremo sul em relação ao nordeste do país.
A pretensa identidade latino-americana afigura-se ainda mais polimórfica e multifacetada. Às diferenças lingüísticas, às quais, de modo mais simples, pode-se referir como a contraposição de um bloco hispânico a um bloco não-hispânico (a que se atrelam as comunidades de fala portuguesa e francesa, por exemplo – Brasil, Canadá, Guiana, além das comunidades de fala guarani, tupi, aymará, quechuá etc.), somam-se as diversidades sócio-econômicas, políticas e culturais. Seria possível, em se considerando toda essa multiplicidade, ainda se falar em identidade? Sob quais critérios? Políticos, econômicos, sociais, culturais, ideológicos? Aparentemente, quanto mais fundo se vai na análise dessa questão mais parece evidenciar-se a impossibilidade de se falar numa efetiva identidade latino-americana.
Um interessante paralelo pode ser imaginado, em se tratando da questão de uma identidade cultural, por exemplo, e de uma identidade lingüística. O conceito de língua possui uma função integradora, reunindo por assim dizer, sob sua faixa de influência, toda uma diversidade, a qual passa a integrar numa unidade algo fictícia, provisória, abstrata, posta no domínio de uma consciência e de um imaginário coletivos. Esse papel integrador referido a esse conceito é, não obstante, de vital importância para a própria sobrevivência da comunidade à qual é aplicado, de modo que os membros dessa comunidade passem a olharem-se e a sentirem-se como formando um mesmo todo – totalidade, talvez, seja um termo mais apropriado que identidade, ao final de contas.
Outro paralelo igualmente instigante pode se efetuar entre o conceito de identidade, aplicado a grupos étnicos, culturais, lingüísticos etc., e o de personalidade, usado em relação a indivíduos. Sob essa ótica, poder-se-ia pensar que o conceito de identidade está para comunidades assim como personalidade está para indivíduos. Efetivamente, é a personalidade responsável por essa função integradora do “eu” numa totalidade que se mantém ao longo do tempo, em permanente e necessária transformação, tendo em vista a sua própria sobrevivência inclusive – semelhantemente ao referido, ainda há pouco, para o conceito de uma “identidade lingüística” em face à sua respectiva comunidade de falantes.
Seja como for, uma possível identidade latino-americana, produto da diferença e da pluralidade, oposta a todo e qualquer modelo, deve ser pensada, na atualidade, no âmbito de um projeto que dissolva a fragmentação e assegure, portanto, a integração e a permanência dessa totalidade. Somente nesse contexto o uso de tal conceito ainda se justifica. A implementação desse objetivo exigiria, segundo alguns analistas, abrir mão do conceito de América Latina, dando lugar a um outro mais restrito: o de América do Sul.
A idéia de América do Sul, que pautou desde o século XIX a política exterior do Brasil, implicava o entendimento de que havia duas Américas, distintas, não tanto por suas origens étnicas ou de idiomas, mas pela geografia, com implicações econômicas e políticas, dado que o México e os países da América Central e Caribe estavam na órbita de influência estadunidense. Esta proximidade torna hoje em dia o México, com o advento do Nafta, ainda mais dependente: quase 90% da economia mexicana encontra-se sob o domínio dos EUA.
Na atualidade, podemos dizer que a anunciada intenção brasileira de fortalecer o Mercosul - se é que de fato existe - para depois uni-lo ao grupo de países do Pacto Andino mais o Chile, formando a Comunidade Sul Americana de Nações (proposta lançada em Cuzco em 2004), privilegiaria a noção de América do Sul, em lugar da idéia de América Latina. Concretizada essa proposta, seria formado um bloco dotado de um território de 17 milhões de Km², uma população de 360 milhões de habitantes e uma paridade de poder de compra estimada em 2,7 trilhões de dólares.
Porém, a substituição de um conceito por outro, exigiria, por um lado, o reconhecimento da identidade plural e o respeito pela diferença. A questão do fortalecimento do Mercosul e a formação da Comunidade Sul Americana de Nações passaria, portanto, de novo pelo debate em torno do tema da identidade. A implementação de tal projeto de integração, por outro, tornaria imprescindível afastar quaisquer inclinações imperialistas ou hegemônicas impositivas ainda imersas nos mitos românticos do século XIX.
 
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